A Trasgo é uma revista de contos de ficção científica e fantasia, disponível em variados formatos eletrônicos e de disponibilidade gratuita. As minirresenhas abaixo são dos contos publicados na 17º edição da revista. Você pode baixar essa edição neste link. Eventualmente também pretendo resenhar contos de edições mais antigas.

Felicitas Ex Machina, de Alexandra Cardoso

Se você conhece a expressão “Deus Ex Machina”, já pode começar a ter alguma ideia do que esperar desse conto, cujo título, se traduzido, ficaria algo como “Felicidade Vinda do Nada”. Num futuro distante e altamente tecnológico, a educação de uma adolescente chamada Gabriela é administrada de forma regulada por meio de uma IA chamada Ada, de acordo com parâmetros severos decididos por sua mãe. O conto trabalha bem a questão da autonomia, tão cara ao desenvolvimento da criança e do adolescente, e vai além, explorando outras temáticas de identidade que são importantes para os dias atuais. Tais temas, é claro, são exercitados criativamente pelos aparatos da ficção científica, cujo foco, no conto, também está na autonomia da máquina. Embora o texto, a meu ver, tenha um ou outro problema de revisão, a narração é eficiente e objetiva na descrição dos adereços do gênero e na desenvoltura da trama.

Último Dia, de Rodolfo Sales

“Último Dia” é um conto que persegue o seu próprio título, uma trama em que o protagonista busca pelo tal dia da salvação enquanto sobrevive em um mundo pós-apocalíptico futurista (que não necessariamente é o nosso). Trata-se de um enredo de viagem no tempo, tema este utilizado de forma peculiar, ressaltada pela estrutura do conto dividido em dois arcos intercalados que, a princípio, soam confusos, mas que começam a se encaixar perto do final do conto. A escrita é bem trabalhada e objetiva, descrevendo sucintamente os elementos da ambientação, os quais, acredito, poderiam ter sido mais explorados, pois alguns detalhes da situação atual daquele mundo e de como ele chegou ao estado deplorável em que se encontra ficaram um pouco vagos, dando a impressão de que é um material para outras histórias. A estrutura narrativa faz bom uso do mistério para fisgar o leitor a desvendar aos poucos o objetivo do protagonista e a forma como ele vai realizar tal objetivo.

M.I.A, de Victor Gerhardt

É sempre interessante ver como um autor de FC vai retratar o tema da inteligência artificial e seus conflitos existenciais. M.I.A é um conto que intercala sua narração em prosa com registros de conversas instantâneas entre dois adolescentes, uma estrutura dual que aparenta ser desconexa durante boa parte do conto, para só no final ser revelada a relação entre elas. A trama gira em torno dos esforços de um programador e de uma psicóloga especializada em IA para descobrir o que está de errado com M.I.A, uma inteligência artificial onipresente em um futuro tecnológico e utópico. A escrita do autor é bem fluida, sabendo a hora certa de dosar informações de worldbuilding. É bem interessante, sobretudo, como o conto consegue trabalhar sentimentos humanos e questões sociais de identidade e relacionamento a partir de sua trama e personagens.

A Folia dos Mortos, de André Caniato

Fantasia e realidade misturam-se de forma natural em algumas histórias que se passam em nosso mundo, criando ambientes em que seus personagens aceitam o fantástico sem assombro. É o que acontece em uma vila, na qual a Folia dos Mortos é sua principal atração. Uma vez por ano, os mortos se levantam do cemitério e festejam pelas ruas junto com as crianças do vilarejo (aos adultos e adolescentes não são permitidos saírem de casa nessa ocasião). É nesse contexto que uma trama envolvendo pai e filho acontece. A estrutura do conto, aliada a uma escrita eficiente, vai e volta ao passado de forma competente, esmiuçando o histórico desses personagens e a relação de ambos com a tal Folia dos Mortos. Aproveita-se de maneira singela o sentimento de perda dentro do núcleo familiar, que atinge o seu auge nas linhas finais.

Gritos, de Érica Bombardi

Uma história de temática lobisomem? Talvez. A narrativa não revela a identidade da criatura pela qual o narrador é apaixonado. Essa imprecisão também é expressada no estilo de escrita do conto, narrado num fluxo de consciência em primeira pessoa. O background envolvendo a dupla de personagens e a própria progressão da trama se dá de forma fragmentada, esfumaçada — detalhes formam um todo ao mesmo tempo em que o esconde. Há um ou outro trecho em que a construção de frase não me caiu bem, mas no geral o fluxo de consciência é eficiente do início ao fim, e, sendo um conto bem curtinho, não cansa o leitor. No final, é um conto que vale mais pelo seu estilo de escrita do que pela trama em si. Ah, e fãs de Crepúsculo vão adorar a narradora (this is bait).

Esperando Simone, de Rodrigo Assis Mesquita

Alex é um homem senil que está buscando a esposa, Simone, em suas memórias cujo acesso se dá por meio artificiais através de um chip na cabeça, coisa comum nesse cenário cyberpunk (em São Paulo). Acompanhamos a vida desse idoso e sua relação com os avanços tecnológicos desse tempo, o qual também possui seus desastres ambientais e algumas semelhanças sociais com o nosso presente. O conto possui uma progressão bastante fragmentada, com cenas breves e temporalmente bem espaçadas, como recortes de momentos-chave para compreendermos o conflito do protagonista. A escrita tem frases bem trabalhadas, com diálogos bem informais para naturalizar a relação entre os personagens apresentados, mas carece um pouco de maiores descrições na construção de algumas cenas, dando a sensação de que está engolindo barriga em alguns momentos (embora, talvez, seja uma tentativa de emular a imprecisão das memórias de Alex). O conto se perde um pouco na progressão da trama, mas consegue ser eficiente em sua proposta intimista.