Nome: O Temor do Sábio
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Arqueiro
Ano: 2011
Páginas: 960
Skoob

O Temor do Sábio dá sequência a história de Kvothe, tanto a do taberneiro de vida apagada que é no presente como a do adolescente artista, arguto, curioso e inconsequente que foi no passado. Seguindo a mesma fórmula de O Nome do Vento, a narração em primeira pessoa de Kvothe é pontuada com pequenas intervenções em terceira. Apesar da estrutura semelhante, O Temor do Sábio aposta em uma narrativa mais aventuresca para o seu protagonista.

A sinopse-resumo

Quando é aconselhado a abandonar seus estudos na Universidade por um período, por causa de sua rivalidade com um membro da nobreza local, Kvothe é obrigado a tentar a vida em outras paragens.

A sinopse de um livro tem a função de pincelar o principal conflito de uma história, a fim de instigar o leitor a lê-lo. Mas deve-se ter o cuidado para não revelar demais e estragar as surpresas que uma história reserva. A sinopse de O Temor do Sábio comete o erro de revelar os principais arcos da narrativa até mais ou menos 80% do livro, eliminando o ineditismo sobre os rumos da aventura de Kvothe. Além disso, o segundo parágrafo da sinopse — citado acima —, em que começa a descrever os acontecimentos iniciais da história, corresponde a um evento que só irá acontecer após 300 páginas de leitura, ou seja, 1/3 de história. Mesmo que O Nome do Vento tenha adiantado alguns acontecimentos na vida de Kvothe, como a saída da Universidade, o leitor ainda contaria com o mistério do “quando”. E uma vez que a sinopse enumera cronologicamente esses eventos, resta ao leitor apenas o “como”. O problema é que O Temor do Sábio é um livro em que o “como” não é tão interessante quanto deveria ser, com exceção de um único contexto.

A Universidade ainda cativante

Sempre quando alguém diz ter iniciado a leitura de O Nome do Vento e não gostado do que leu até o momento, surge alguém e lhe pergunta: “Chegou na Universidade?”. A pergunta é justa, pois quase todo o brilhantismo dessa série jaz no ambiente acadêmico. As dificuldades de Kvothe para se sustentar lá dentro, as amizades e rivalidades dentro desse ambiente, os professores e suas aulas, a magia tratada como ciência, a garota que vive solitariamente nos subterrâneos do lugar, o Arquivo e seus incontáveis livros, a música (e Dena) do outro lado do rio… Trata-se de uma junção de características extremamente cativantes que, felizmente, estão presentes no primeiro terço e no finalzinho de O Temor do Sábio.

O arco da Universidade aqui é uma reunião de acontecimentos tal como é no primeiro livro. Acompanhamos a evolução dos estudos de Kvothe com o Elodin, o seu eterno flerte com Dena e a sua incrível capacidade de se meter em problemas. Rothfuss sabe como conduzir esses acontecimentos de forma a entreter o leitor, seja fazendo-o prender a respiração com um duelo tenso de Alar, gargalhar de uma língua sem filtro moral, ou refletir sobre os ensinamentos malucos de Elodin. Nem o ambiente escolar de Harry Potter, criado pela J. K. Rowling, consegue ser tão vibrante, mesmo que, de certa forma, seja mais icônico. A diferença está no recheio: há um capítulo, por exemplo, dedicado à manutenção do Arquivo, que faz com que um estudante de Letras ou Biblioteconomia se empolgue com a riqueza de detalhes daquele lugar. Ao acompanhar a vida de Kvothe na Universidade, Rothfuss também trabalha o lado intelectual desse ambiente, que possui áreas de estudo mais concretas ou abstratas, mais fantasiosas ou realistas, como Linguística, Aritmética, Simpatia, Retórica, Alquimia, História etc. Ao focar em algumas dessas áreas, principalmente História e Nomeação, o livro oferece diversas questões para se refletir junto ao protagonista. Mas o que incrementa e abrilhanta ainda mais essa ambientação são as interações entre os personagens, com diálogos bem humorados ou faiscantes, a depender da situação. Dificilmente você encontrará por aí uma história de fantasia com essas características de forma tão bem executada.

Se a narrativa em O Temor do Sábio fosse inteiramente na Universidade, seriam incríveis 960 páginas de leitura, mas, (in)felizmente, ela não é.

A aventura não tão cativante

Quando Kvothe é forçado a deixar a Universidade por algum tempo, o livro assume o tom de uma narrativa de aventura, englobando novas tramas e núcleos de personagens. Não seria a primeira vez que leríamos uma história de Kvothe longe da Universidade, já que O Nome do Vento apresenta, em sua segunda metade, uma breve jornada atrás de pistas sobre o Chandriano. Aqui, entretanto, Kvothe viverá mais de uma aventura e aprenderá bastante com elas, evoluindo e se transformando como personagem.  A ideia é a clássica jornada de um herói que vai embora de seu lar (a Universidade) e regressa mais amadurecido. Nesse sentido, é compreensível porque Rothfuss tenha despendido o dobro de páginas em relação ao “mundo comum” da Universidade, justamente para criar a sensação temporal de muito tempo longe de casa. Quando Kvothe retorna para o seu lar, o leitor sente que muito tempo havia se passado (umas 600 páginas de leitura, para dizer de outra forma). Além disso, essa jornada contribui para as histórias do Kvothe naquele mundo e mostra como o boca a boca o transformou em uma lenda.

No entanto, essa longa aventura também realça um dos principais defeitos de A Crônica do Matador do Rei: seu ritmo arrastado. Várias pessoas dropam O Nome do Vento antes mesmo da chegada de Kvothe à Universidade pela exagerada cadência narrativa de Rothfuss, que em parte é reforçada pela sua escrita pretensiosa em que duas ou três metáforas ocupam o espaço de vários linhas, quando apenas uma metáfora seria o suficiente para expressar o que quer dizer. Ao alongar essas tramas com cenas e diálogos que não parecem tão relevantes para o andamento da história, o ritmo de leitura é bastante prejudicado, cativando apenas os mais apaixonados por essa série. Se olharmos friamente, iremos perceber que O Temor do Sábio não vale as 960 páginas necessárias para contar a sua história. E isso impacta prejudicialmente na experiência da leitura — demorei muitos meses para terminar este livro. Esse tipo problema não acontece nos arcos da Universidade porque as conversas e situações corriqueiras fazem parte deste ambiente, que contam ainda com personagens que já cativaram o público há muitas páginas. No entanto, ao tentar ser corriqueiro em outras paragens, por mais que a narrativa tenha a proposta de apresentar a vivência e cultura de determinados lugares, é necessário ser mais conciso para não criar a sensação de que a história não está indo para lugar algum.

Kvothe como personagem

Há quem deteste o protagonista dessa história, por achá-lo sutilmente vilanesco e arrogante, e há quem o ame, por achá-lo heroico. Acredito que o Kvothe seja um personagem cinzento. Ele definitivamente não é perfeito, mesmo que o próprio taberneiro faça um esforço para torná-lo um herói clássico em sua narrativa. Os defeitos do personagem estão presentes em vários pontos da história; defeitos de sua ingenuidade no mundo afora, como conseguir ser derrotado em “artes marciais” por uma criança; de não ter o menor jeito para algumas áreas de estudo na Universidade, como química e aritmética; e também de caráter moral, como tentar justificar experimentos em um povo porque a ciência avançou bastante apesar das atrocidades, na frente de um descendente desse povo que é um dos seus melhores amigos. Kvothe é definitivamente inconsequente e egocêntrico, mas isso não quer dizer que ele também não demonstre qualidades positivas que seriam vistas em um herói — mesmo que estas sejam exaltadas por um narrador que é ninguém menos do que o próprio Kvothe, ou seja, um narrador não-confiável.

Excelente em alguns momentos, defeituoso em outros

O Temor do Sábio é um livro recheado de momentos definitivamente empolgantes e apaixonantes. A jornada de Kvothe nos mostra como o conhecimento além dos muros de um ambiente acadêmico é tão valoroso quanto aqueles que você adquire dentro dele; o mundo é constituído por povos de cultura e saberes variados, e o choque entre o seu entendimento de mundo com o desses povos gera reflexões que o tornam uma pessoa mais consciente das possibilidades que a realidade oferece. Toda essa mensagem expressa na narrativa, entretanto, poderia ser mais eficiente e menos maçante não fosse pelo seu ritmo arrastado. Resta torcer para que o Rothfuss dose melhor a mão em seu terceiro e último livro — embora eu acredite que ele vá facilmente passar das 1000 páginas —, isso se o terceiro livro sair (risos).

Livros da série A Crônica do Matador do Rei

O Nome do Vento

O Temor do Sábio

A Música do Silêncio (spin-off)