Nome: Cira e o Velho
Autor: Walter Tierno
Editora: Giz Editorial (1º edição)
Ano: 2010
Páginas: 229
Skoob

Um convite para conhecer Cira

A figurinha era simples. Não era daquelas autocolantes, que custavam bem mais caro. No verso, lia-se uma descrição da personagem: “Cira. Filha de uma bruxa e do cobra Norato. Diz-se que matou a princesa da grande cidade e libertou os tatus. Em algumas regiões, conta-se que lutou contra um bando de lobisomens e que participou da guerra de Palmares, lutando ao lado de Zumbi”.

Página 10

Logo de cara, Walter Tierno faz um trabalho magistral em conduzir a curiosidade do leitor acerca de uma das personagens no título do livro: Cira. Um narrador em primeira pessoa expõe seu fascínio sobre uma personagem folclórica — que viu em uma figurinha, quando ainda era criança — e a sua obsessão em querer conhecer mais sobre ela. Isso levou-o a viajar para vários lugares, a fim de ouvir os relatos daqueles que tiveram contato com essa personagem. E é a partir do recorte desses relatos que o narrador monta a história de Cira e apresenta-a ao leitor. A introdução de Cira e o Velho é irretocável nesse “convite ao leitor”, e parte da qualidade também se deve à sua prosa bastante refinada.

Folclore brasileiro na veia

Este livro foi publicado em 2010, e, pelo o que me lembro, a temática do folclore brasileiro era escassa no cenário da literatura fantástica nacional, ganhando proeminência apenas nos anos posteriores. Sabe-se que, mesmo hoje, a nossa literatura especulativa (fantasia, terror e ficção científica) ainda encontra uma certa resistência de alguns leitores; o mesmo vale para os nossos mitos, que acabam sendo desprezados ou vistos como menos interessantes que os de outros países. Pode ser que Cira e o Velho tenha sofrido desse preconceito, o que é uma pena, pois garanto que o seu conteúdo é composto de qualidade e criatividade.

Pesam dois elementos a favor da temática desse livro: o primeiro é ambientação histórica — período colonial do século XVII —, na qual as lendas possuem mais presença se comparada a uma ambientação contemporânea; o segundo são as lendas em si, pertencentes ao nosso folclore e mescladas com a criatividade do autor, de forma a criar uma identidade brasileira reconhecível. A fantasia aqui tem aquele tom de absurdo que a gente encontra nas lendas que nossos avós nos contam, uma aura surrealista que extrapola a lógica mas mantém a verossimilhança.

Uma história de vingança

(…) Comecemos por um lugar-comum: todo grande herói, ou heroína, precisa de um vilão, ou vilã, à altura.

Comecemos pelo Paulista.

Página 18

O enredo de Cira e o Velho é constituído de dois arcos: o primeiro arco nos apresenta o Velho, vilão da história, em uma missão para matar os filhos do Cobra Norato; o segundo arco, bem maior, é uma consequência dessa missão: a vingança de Cira. Nas jornadas de ambos os personagens, o leitor irá presenciar diversas tragédias que não se resumem apenas a mortes, e sim a coisas bem piores. No entanto, não se trata de uma história que intenta o choro no leitor, e sim o testemunho assombroso de todos esses eventos. Daí porque, enquanto lia, sentia dificuldades ou demorava a me conectar a certos personagens. A própria Cira foi uma personagem que pouco me cativou no decorrer da história — apesar de suas falhas humanas, como a solidão, ingenuidade e impulsividade, trabalhadas ao lado de uma postura quase badass —, ao passo que alguns secundários e o próprio vilão me passaram uma vivacidade maior.

Por ser uma história de vingança, ela não é leve. Este é um aviso necessário, pois ainda há pessoas que ficaram com o tom infantil do folclore brasileiro na cabeça e se esquecem de que as histórias envolvendo os nossos mitos são bem sinistras e violentas. Por exemplo, sangue e sexo são dois elementos comuns em Cira e o Velho; certamente não é algo pra criança. A violência deste livro, no entanto, não parte necessariamente do fantástico, como uma caveira que beija um curupira e arranca sua língua, mas também das crueldades humanas, como abusos e estupros — lembre-se: se passa na época da escravidão. Embora pareça uma leitura bastante tensa, ela é banhada naquele sentimento de assombro e mistério que sentimos ao escutar as lendas, e isso anestesia um pouco o choque que sentiríamos ao ver certos acontecimentos dentro de uma ótica mais realista. Basta pensar que você é, em vez de uma criança, um adulto escutando as lendas narradas por alguém mais velho, o qual incluirá temas e situações cujo peso você compreenderá em idade madura.

Texto e ilustrações

A escrita do Walter é bastante objetiva, numa tentativa de contar mais com menos, com frases fortes e bem efetivas. O estilo, que privilegia a concisão, gera uma leitura rápida e fluida, que é suportada também por capítulos curtos e ganchos bem pensados. No entanto, ao longo do livro, nota-se um desequilíbrio no ritmo de leitura, que se torna mais protuberante em sua parte final, que é bem mais apressada e destoa bastante do que foi consolidado na parte inicial. Vale destacar as epígrafes que introduzem quase todos os capítulos, algumas das quais sendo recortes de documentos históricos, com o objetivo de contextualizar ou adornar algum conflito ou temática daquele capítulo. O livro também conta com ilustrações desenhadas pelo próprio autor, de estilo menos realista, meio caricato em alguns momentos, e de traços fortes, que adicionam um charme às páginas do livro.

Um folclore para adultos

Cira e o Velho é um caldeirão cultural de personagens folclóricos em um período histórico, apesar de também alcançar o tempo presente. Esse enredo adulto e sombrio pode ser encarado como uma necessária extensão de nossa relação com o folclore brasileiro, visto que, em muitos de nós, ela estagnou no Sítio do Pica-pau Amarelo e nos livrinhos para colorir na escola.

Livros do Walter Tierno

Cira e o Velho (2010)

Anardeus: no calor da destruição (2013)

Como Tatuagem (2016)

Anjo na Gaiola (2020)