Nome: Lobo de Rua
Autor: Jana P. Bianchi
Editora: Independente (1º edição)
Ano: 2015
Páginas: 91

Ao ver sua situação, Tito sentira um aperto no peito. A maldição do lobisomem era desgraçada, mas o menino já parecia viver sua própria maldição.

Muitos dos elementos que compõem a fantasia urbana se concentram à margem do cotidiano, invisíveis para a maioria das pessoas. Se o fantástico existe entre as ruas e os prédios de uma cidade, dificilmente notaremos sua presença. Entretanto, elementos realistas também acabam se tornando invisíveis aos nossos olhos, ou simplesmente ignorados, como é o caso dos moradores de rua. É unindo o marginal do fantástico e do realismo que Lobo de Rua se propõe a narrar a história de Raul, um menino de rua de São Paulo que é amaldiçoado a se transformar em lobisomem pelo resto de sua vida.

Começara a sentir-se mal no dia anterior. Logo ao despertar, notara o ponto brilhante pulsando ininterruptamente em seu campo de visão. Àquele problema juntara-se logo um ardor nas gengivas e uma leve náusea esquisita, completamente diferente daquela proveniente da desnutrição, com a qual se acostumara desde a infância.

O mito do lobisomem, já tão saturado na fantasia, apresenta-se aqui com uma roupagem refrescante. Ela beira o científico em alguns aspectos, aproximando-se muito da nossa realidade, o que o torna um elemento de fantasia urbana bem desenvolvido e instigante. Além disso, demonstra algumas características “mágicas” que você normalmente não encontraria nesta raça. Todos os detalhes sobre esse conceito são explicados a Raul por um lobisomem veterano chamado Tito, o qual ajudará o garoto a superar os sofrimentos advindos dessa maldição.

Tito e Raul são os personagens centrais dessa novela, e o conflito narrativo gira em torno do garoto tentando lidar com sua segunda transformação de lobisomem. Contudo, em sua segunda metade, a história também explora um núcleo de outros dois personagens cujos conflitos não se harmonizam com a trama principal, e a impressão é que eles são um gancho para alguma outra narrativa ambientada nesse universo da autora. Essas pontas soltas acabam diminuindo a força da narrativa sobre Raul e Tito, que, felizmente, apresenta um final satisfatório que pode ser impactante para alguns.

Raul gania e se revirava no chão como um filhote atropelado, recém-aleijado. Suas mãos e pés sangravam, e o pelo já começava a lhe cobrir o corpo de acordo com o bizarro protocolo da maldição: primeiro as costas e a barriga, de onde seguiria para o peito e cabeça até, por fim, cobrir os membros.

Além do criativo universo apresentado, a autora também brinda o leitor com uma escrita madura e bem lapidada. Há uma cena de conversa na história que dura páginas e páginas sem que o texto soe maçante, o que só demonstra o domínio de linguagem e de perícia literária para envolver (e encantar) o leitor.