Acabei lendo poucos livros nesse primeiro trimestre. Motivo: o tempo que eu me dedicaria à leitura foi usado para a edição do meu livro (Maga Martel), que, atualmente, encontra-se nas mãos de uma revisora (espero poder trazer novidades em breve). Também acabei dropando algumas leituras no meio, como “Um corpo na biblioteca”, de Agatha Christie. Mas confira abaixo o que eu andei lendo e o que achei de cada leitura.

ROMANCES

O Azarão, de Markus Zusak (1999)


Raso e bagunçado

Pode ser complicado ler o primeiro livro de um autor, pois as chances de encontrar um trabalho literário de baixa qualidade é maior. Aconteceu quando li “Carrie, a estranha”, do Stephen King, e aconteceu agora com este livro do mesmo autor de “A menina que roubava livros” (que eu considero razoável). Trata-se de um romance de formação bem raso, com um narrador-protagonista que, embora tenha potencial (e eu até me identifiquei com ele, em parte), narra a própria história em um compilado desorganizado de acontecimentos majoritariamente irrelevantes. A única trama que realmente é interessante e se alia bem ao arco do personagem é o seu desejo por uma garota, mas isso só é explorado em alguns capítulos e no final do livro (a qual é a melhor parte dele em termos de escrita e história). O mais bizarro é que o livro termina incompleto, pois ele é o primeiro de uma trilogia (e essa informação nem consta na sinopse ou na orelha). Seria uma obra melhor se fosse um conto, em vez de um romance.

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Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello (2017)

Em um futuro que é perto do presente

Embora não exista uma obra que não seja fruto de seu tempo, algumas se caracterizam por reafirmar ou rechaçar o período da qual elas fazem parte. “Ninguém Nasce Herói” é claramente uma resposta ao fundamentalismo que domina o Brasil nos últimos anos, uma distopia (ou nem tanta) bem familiar a qualquer um que perceba as consequências do bolsonarismo.

Por meio de uma história young adult, Eric Novello nos coloca no ponto de vista de um protagonista chamado Chuvisco que, tal como seu grupo de amigos, pertence a um grupo minoritário – alvo principal do governo do Escolhido, como é nomeado o político fascista nessa história, afinal, o brasileiro adora eleger um salvador. Um detalhe interessante é que a narração de Chuvisco é permeada por catarses criativas, uma condição psicológica que o faz moldar a realidade aos seus olhos e transforma sua narração em algo mais fantástico, que pode ser poeticamente encantador e tenebroso. E assim como Chuvisco tenta controlar suas catarses, ele e os amigos tentam controlar suas vidas dentro de uma realidade distópica da qual eles não têm controle, mesmo que cada um deles lutem para isso ao seu modo. Apesar de todo esse arcabouço, ainda se trata de um livro young adult recheado de cenas cotidianas e conflitos de relacionamento. Confesso que senti alguma dificuldade para me apegar aos personagens na primeira metade da história, uma vez que todos já eram amigos e eu, como leitor, me sentia um intruso entre eles, por mais que o narrador tentasse contextualizar sua relação com cada um deles. Há um excesso de momentos de “slice of life” que deixam a trama meio arrastada nos primeiros 2/3 do livro, embora eles sejam essenciais para dar impacto narrativo quando esses momentos banais começam a ser oprimidos. A história tinha potencial para uma trama mais agressiva – mais ou menos como ocorre em seu terço final –, mas o autor preferiu focar nas relações interpessoais, tal como é o nosso cotidiano – principalmente os das pessoas que sofrem preconceitos e ameaças.

O mais irônico desse livro é que a primeira cena é composta por personagens distribuindo livros na rua como forma de protesto. E na última Bienal do Rio, este foi um dos livros distribuídos pelo Felipe Neto após um político fundamentalista censurar uma HQ com beijo gay. Realidade e ficção se misturam dentro e fora das páginas.

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Projeto Ares: A Ilha X, de Luiz Fabrício Mendes (Goldfield) (2021)

Para quem curte o survivor horror dos jogos

Quer tentar experimentar a narrativa clássica de um survivor horror no formato de um livro? Talvez “Projeto Ares: A Ilha X” seja uma boa pedida. Bastante inspirada em Resident Evil, acompanhamos a luta pela sobrevivência em uma ilha repleta de mutantes criados nos laboratórios de uma empresa farmacêutica. Além das inspirações, há bastante referências e easter eggs a Resident Evil, o que pode gerar alguns momentos de “eu entendia a referência” a fãs da franquia.

O desenvolvimento da trama segue o estilo dos jogos desse gênero, com bastante exploração, leitura de “documentos” e “quebra-cabeças” para acessar novas áreas. A escrita parece seguir os moldes dos livros escritos por S.D.Perry para a franquia RE, com bastante descrição de cenário enquanto a protagonista explora todos os cantos de onde ela está presa. Contudo, acredito que o autor pesa a mão ao tentar descrever cada recinto da forma mais minuciosa possível, o que acaba prejudicando o ritmo do livro após algum tempo. Há também um excesso no tamanho dos documentos, que poderiam ser mais enxutos.

Uma ideia muito bacana são os mapas feitos ao estilo RE. Eles auxiliam bastante na visualização do trajeto da personagem. Porém aqui faço mais uma crítica. Um novo mapa só aparece depois que a personagem explora quase todos os cantos dele, e o autor aproveita para marcar elementos e eventos da história no próprio mapa. No entanto, assim como os mapas nos livros de fantasia já estão acessíveis para o leitor já nas páginas iniciais, a fim de ajudá-lo a se guiar geograficamente no universo da história, os mapas da Ilha X também poderiam estar disponíveis logo no começo, para que a qualquer momento ele possa ser acessado (tal como é num survivor horror, que, embora seja necessário achar o mapa primeiro, é mais fácil memorizar a imagem do cenário do que descrito num livro). Se o autor for escrever um próximo livro nesse estilo, minha recomendação é manter os mapas com os “spoilers” no meio dos capítulos, mas adicionar os mapas em seu formato cru no começo do livro.

Curiosamente, esse livro faz parte de um universo literário do autor: o Adamsverso O epílogo causa um pouco de estranhamento, já que esse é o primeiro livro desse universo que eu leio. Contudo, é uma história fechada que não depende de outras leituras para ser compreendida.

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CONTOS

Rastros Invisíveis, de Jean Gabriel Álamo (2018)

Quando o “cidadão de bem” resolve ser um super-herói

Maximiliano Ferreira, o protagonista desse suspense investigativo, é um vigilante noturno tal qual o herói morcego da DC – referenciado no conto –, porém bem menos romantizado e mais a imagem do “cidadão de bem” brasileiro, afinal, pode ser visualmente lindo ver o Batman amarrando criminosos num holofote (ou até mesmo o Homem-Aranha prendendo bandidos na teia), mas não é o caso de criminosos (negros) amarrados nus em postes. Com uma escrita objetiva e uma trama mais familiar e realista ao cenário brasileiro, o conto assemelha-se a um episódio piloto de uma história, contando as origens do vigilante conhecido como Espectro e apresentando-o em uma de suas várias caçadas por justiça. Ressalta-se também o ótimo domínio temático sobre rackeamento, o que não me surpreende por já conhecer o autor, o qual trabalha bastante com sci-fi.

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OUTRAS LEITURAS

Dossiê Old!Gamer Playstation (2016)

História do Playstation e seus jogos

A coleção Dossiê Old!Gamer aborda o legado de cada console lançado e elenca os jogos mais relevantes de cada um deles. Nesta edição, conhecemos um pouco mais a história do meu console preferido (que ganhei tardiamente lá em 2004): o Playstation 1. São 580 jogos listados, de 1994 a 2004, e é um excelente guia para qualquer jogador se aventurar nos jogos mais icônicos e naqueles pouco conhecidos, mas que têm a sua importância. A revista também lista algumas personalidades importantes, como diretores e compositores que marcaram essa geração (e aqui percebe-se uma grande quantidade de artistas japoneses). Ainda pretendo jogar muito dos jogos mostrados nesta revista, incluindo alguns clássicos JRPGs.